A conspiração - Parte 1

Sinopse

A conspiração, misto de realidade e ficção. Um conto que procura mostrar o terrorismo praticado por indivíduos e organizações criminosas, com existência legal ou não, em torno de determinadas pessoas.  Mostra um pouco da realidade do submundo e da crueldade da vida carcerária.  Contém um pouco da experiência pessoal do autor em seus tempos de magistrado mesclada com muita ficção.  Qualquer semelhança com nomes, pessoas, situações e instituições será mera coincidência, mas também poderá não ser. Você decide.

A CONSPIRAÇÃO

Joviano Caiado

- O senhor tem o direito de permanecer calado sem que tal fato necessariamente implique em prejuízo para a sua defesa.  Por outro lado, se entender de se manifestar, fique bem ciente que a pessoa que está na sua frente é aquela que irá julgar os atos que praticou, não é um imbecil pronto a aceitar qualquer coisa sem questioná-lo.  Dito isto, a denúncia já foi lida.  Os fatos aconteceram como ali constam?

- Não, na verdade, “seu” juiz...

Havia começado mais um interrogatório de um dos inúmeros processos onde Pedro da Maria, o Pedrão, um metro e noventa, cento e vinte quilos, aparecia como o principal acusado. Homem violento, já cumpria pena pela prática de diversos crimes, inclusive como mandante ou executor de diversos assassinatos cometidos dentro e fora da cadeia.  Suas fugas, suas brigas e sua liderança tornaram-se lendárias.

 Na altura de seu meio século de vida já havia ocupado diversos cargos na diretoria da “Organização” - entidade oficiosa composta por pessoas que cumprem pena em diversos presídios - havia sido Ministro diversas vezes. 

Na “Organização”, Ministro era semelhante a um cargo de diretor nas empresas normais.  No presídio de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, onde estava “morando” ocupava o posto de Primeiro Ministro.

Seus comandados jamais questionavam uma ordem sua.  Desobedeceu, corriam o risco de serem mandados direto para o microondas, queimados ainda vivos, sem passarem pelo estágio da empalação, mutilação de orelhas, mãos, dedos, marcação com ferro incandescente. Algumas dessas práticas eram reservadas especialmente para os aviões que ousavam cheirar, fumar ou se apropriar de pasta base ou dinheiro do chefe.  O terror, meio mais eficaz encontrado para administrar seu império.  

Pedro da Maria, grande atacadista do mundo das drogas, só trabalhava com pasta base. Fornecia para os grandes traficantes. Muitas vezes o produtor fazia a entrega diretamente para os clientes de Pedrão, que recebia sua comissão livre de preocupação.

A pasta, depois do refino, banho químico e mistura, um quilo se transformava em quatro de cocaína pronto para venda no varejo. 

Pedrão não trabalhava com o consumidor, com o narcodependente, para não ter que se preocupar com a distribuição, com o controle dos pontos de venda, armamento, enfrentamento e corrupção policial, apoio para as “viúvas” de seus camaradas que tombavam ou eram presos na guerra pelo domínio das bocas. 

O cumprimento de suas penas em presídios na região da fronteira com a Bolívia e Paraguai foi o responsável por transformar Pedro da Maria em pessoa especializada e grande conhecedora do mercado de câmbio - conhecia todos os doleiros permanentes e eventuais nos dois lados da fronteira – produção, refino e transporte da droga. 

Naquela região estão internados traficantes oriundos de várias partes do mundo, foram eles que serviram de fonte de informação primária.  Intermediários dos grandes cartéis sul-americanos visitavam Pedro regularmente na cadeia.

Embora cumprindo pena, Pedrão dominava o narcotráfico dentro e fora da cadeia.  O fato de estar preso não se apresentava como empecilho para as suas atividades. Toda a administração era feita por telefone celular.

Suas contas bancárias estavam em nome de terceiros, geralmente mães ou irmãs de seus parceiros mais fiéis ou em cofres alugados em bancos nos países com fronteira com o Brasil. Dinheiro não faltava. Certa vez, por ocasião de repressão intensa no presídio, chegou a pagar para um dos carcereiros, homem corrupto, sem escrúpulos e pouco inteligente, que queria se...

Comments 

 
+3 #1 Mauro Goulart 2009-11-06 01:19
esta tudo ok!!
abss
Quote
 

Add comment


Security code
Refresh