A Conspiração - Parte 2

 

A CONSPIRAÇÃO – Parte 2

Certa vez, por ocasião de repressão intensa no presídio, chegou a pagar para um dos carcereiros, homem corrupto, sem escrúpulos e pouco inteligente, que queria se aproveitar da situação e não conhecia Pedro, cerca de cinqüenta mil dólares por um celular.   Lógico que o carcereiro morreu eletrocutado misteriosamente três dias depois no setor de manutenção elétrica. O dinheiro sumiu.  Não é preciso dizer que a partir daquele dia jamais Pedro da Maria ficou sem um telefone, fosse ou não culpado pela morte daquele carcereiro.

Pedrão, em todos os seus processos, se a acusação procedia, ele confessava o crime.  A confissão de Pedro não era fruto de tortura ou fraqueza, ao contrário.

A vida de crimes lhe ensinou que a resistência à tortura, a negação de fatos evidentes, o heroísmo imotivado, só servia para instigar o sadismo dos policiais.

A humilhação intensa tornava dificílima a recuperação emocional, poucos conseguiam. Malandro velho ele procurava manter íntegro o sentimento de sua própria dignidade e respeito pessoal.

Os poucos policiais que um dia o agrediram desapareceram - “subiram” - foram pro andar de cima, ninguém sabe como. 

Bandido experiente sabia que a confissão na delegacia era vista com transparência pelos juízes experientes e pelos desembargadores. 

Se as provas fossem fortes confessava tranquilamente, se fossem fracas “assinava” na delegacia, mas aguardava o interrogatório no fórum para rejeitar a acusação.

Ele comandava a sua defesa.  Advogado nenhum lhe dizia o que falar no momento do interrogatório, mesmo porque experiência não lhe faltava. Os defensores que se atreveram receberam lições de estratégia processual. 

Pedro praticava crimes desde a adolescência. 

Filho de prostituta, nunca se interessou em saber o nome de seu pai.

Sempre foi o Pedro da Maria - sua mãe, como consta em seu registro tardio - Pedro, Pedrão ou Da Maria, nomes muito utilizados no meio da bandidagem.

A figura paterna nunca lhe fez falta.

Sua mãe, na batalha da vida, sempre supriu as necessidades da família.

Se algum de seus quatro irmãos, cada filho de um pai diferente, necessitava de alguma coisa que sua mãe não podia lhe dar Pedrão, filho mais velho, partia prá luta: um roubo, um programa com algum homossexual ou com alguma senhora aflita na menopausa, levantava rapidinho a grana para uso doméstico.

Com dezessete anos partiu de casa e nunca mais voltou, não avisou, não deu notícias e nem se interessou mais por sua família, nem mesmo por Maria. 

Depois das primeiras condenações por homicídio ele sentia mais segurança no presídio, tantos eram os inimigos que viviam do lado de fora.  Os carcereiros e policiais o tratavam por “seu” Pedro prá cá, “seu” Pedro prá lá.

Somente uma pessoa causava-lhe um sentimento de profundo respeito: o juiz que o estava interrogando naquele momento.

Ambos se conheciam há quase vinte anos, desde quando ele foi preso em Corumbá, na fronteira com a Bolívia, em pleno pantanal sulmatogrosense traficando seus primeiros quilos de pasta.

Foi ele que ao perceber que Pedro não tinha qualquer documento mandou que o conduzissem ao Fórum e providenciou o registro de nascimento tardio, lançando nos registros o famoso “Pedro da Maria”, na falta de um nome de família.

O respeito de Pedro pelo Dr. Felix – o juiz – residia também no modo como o magistrado tratava os acusados durante os interrogatórios, com simplicidade, sem usar termos rebuscados, procurava ajudar as famílias dos condenados orientando-as, zelava pela administração da pena aplicada para que não excedesse o tempo previsto.  Comarca pequena, o juiz exercia diversas funções.

Felix, profissional experiente, depois de vários anos advogando resolveu prestar concurso para a magistratura.

Nas audiências as mentiras eram toleradas até um determinado ponto - no direito penal brasileiro os réus não prestam o compromisso de dizer a verdade sob pena de serem processados por perjúrio - o Dr. Felix os advertia veementemente para que não subestimassem sua inteligência porque ele seria a pessoa que iria sentenciar aquele processo.

- Pode mentir, mas lembre-se que sou eu que vou julgar o processo.

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