A Conspiração - Parte 3

A Conspiração - parte 3

 O respeito de Pedro pelo Dr. Felix – o juiz – residia também no modo como o magistrado tratava os acusados durante os interrogatórios: com simplicidade, sem usar termos rebuscados, procurava ajudar as famílias dos condenados orientando-as, zelava pela administração da pena aplicada para que não excedesse o tempo previsto.

Comarca pequena, o juiz exercia diversas funções. Felix, profissional experiente, depois de vários anos advogando resolveu prestar concurso para a magistratura. Nas audiências as mentiras eram toleradas até um determinado ponto - no direito penal brasileiro os réus não prestam o compromisso de dizer a verdade sob pena de serem processados por perjúrio - o Dr. Felix os advertia veementemente para que não subestimassem sua inteligência porque ele seria a pessoa que iria sentenciar aquele processo.

- Pode mentir, mas lembre-se que sou eu que vou julgar o processo.

Alguns advogados diziam que Felix com sua atuação obtinha muitas confissões, fazendo os clientes contrariarem as orientações dos causídicos.

As penas eram aplicadas sem exagero, na justa medida do crime praticado, houvesse ou não pressão da mídia.  O respeito era mútuo.  Por ocasião das poucas rebeliões, acontecidas sempre na ausência do juiz, por férias ou licença médica, Pedro da Maria - Primeiro Ministro – apresentava-se como o principal interlocutor do magistrado.

 Bastava o Dr. Felix chegar à Comarca uma rápida reunião resolvia o problema.  Felix estava iniciando sua vida de magistrado.

Líder, membro influente e temido da “organização”, Pedrão constantemente era transferido de presídio, já havia estado inclusive em presídios de São Paulo.  As autoridades de outras cidades o temiam.  Pedro da Maria era figura constante em todos os “bondes”, nome utilizado para as transferências de presos entre uma cadeia e outra.

Juiz na capital de Mato Grosso do Sul, Felix já estava caminhando para o final da sua carreira, faltavam poucos meses para a aposentadoria. Depois de quase duas décadas reencontrava Pedro.

Início do outono, os dias já apresentavam uma luminosidade diferente, temperatura mais amena e vento, muito vento naquela tarde de trabalho no Forum.  O furgão do Sistema Penitenciário, apelidado pelo povo de “coração de mãe”, chegava com os presos para as audiências, alguns seriam interrogados, outros iriam apenas assistir a coleta de depoimentos das testemunhas nos seus processos.

A velocidade excessiva do veículo ao se aproximar do prédio, o barulho intenso de sirenes, o aparato e armamento policial, mostravam que alguma coisa anormal estava acontecendo.

Os corredores do forum estavam protegidos por homens do batalhão especializado em gerenciamento de crises armados com fuzis e metralhadoras.  Os prédios próximos estavam guarnecidos por snipers – francos atiradores.  A porta de acesso ao gabinete e à sala das audiências do Dr. Felix estava vigiada por quatro policiais fortemente armados.  Todas as pessoas passavam por revistas, inclusive funcionários e advogados.

Pedro da Maria entrou assustado na sala.  Dois policiais equipados para combate ladeavam a cadeira do juiz.  Felix estava com colete à prova de balas, coldre subaxilar e ao seu lado na mesa uma pistola engatilhada.  Pedrão, devidamente algemado, sentou-se na cadeira destinada às pessoas que iam prestar depoimento, colada na mesa de audiência, percebeu a gravidade da situação e cerimonioso, com voz baixa, quase inaudível, indagou:

- Algum problema excelência?

Felix fixou o olhar em Pedro e balançou a cabeça lenta e negativamente, significando que não poderia falar, o assunto era sigiloso e grave.

Na madrugada daquela segunda-feira o telefone soou na residência de Felix, todos dormiam. O juiz acordou assustado, seus filhos moravam no Rio de Janeiro, alguma coisa de ruim poderia ter acontecido.  Era o delegado responsável pelo serviço de inteligência da secretaria de segurança.  O juiz, com o celular colado no ouvido, foi caminhando para o escritório da casa.   As palavras do delegado foram mais assustadoras ainda:

- Excelência desculpe acordá-lo a esta hora, mas o assunto é grave e urgente.  Foi descoberto um plano para a sua execução.  Segundo a informação que nos foi passada o senhor será assassinado entre o dia 18 – amanhã – e o dia 24 de abril, por ocasião do interrogatório de um dos ministros da Organização.  O plano é para matá-lo quando o senhor chegar ao forum.  Durante aqueles segundos que o senhor parar o carro para aguardar a abertura do portão eletrônico da garagem, um pistoleiro posicionado na esquina próxima, pegará as armas em uma lixeira no poste ao lado e irá metralhar o carro.  Após disparar todos os tiros completará a execução descarregando um revolver calibre .357 no seu corpo.  Um cúmplice em uma motocicleta em alta velocidade virá e dará fuga para o homem.  Seguirão até a avenida próxima, trocarão a moto por um carro e, mais adiante, por uma caminhonete.  Os executores já chegaram e são da fronteira de Ponta Porã com Pedro Juan Caballero, cidade paraguaia.  O senhor tranque as portas de sua residência pegue sua arma e a mantenha sempre ao seu lado.  Se o senhor olhar pela janela verá que já existem policiais na porta de seu prédio.  O assunto é sério.  Ao amanhecer estarei em sua casa junto com delegados da Polícia Federal, Civil e oficiais da Polícia Militar.

Felix, pálido, coração acelerado - não se lembrava de ter respirado durante a fala do delegado - desligou o telefone.  Sua mulher, atônita e angustiada, sem saber o que estava acontecendo, entrou no escritório no exato momento que Felix abria a gaveta da mesa, pegava e engatilhava a pistola.

- Felix, pelo amor de Deus! O que está acontecendo?  Prá que esta arma?

- Estão querendo me matar.

- Deus do Céu! Por que esta desgraça?

- Coisa da Organização, coisa do presídio.  São situações da profissão, sou juiz criminal, tenho que encarar.  Fique tranqüila, sei e vou me proteger.

Sete horas da manhã, reunião no apartamento do magistrado.  Todas as instituições policiais enviaram representantes, além de pessoas ligadas diretamente ao governador e ao Tribunal de Justiça.  Foi estabelecido um plano de proteção.  O juiz passaria a andar com escolta, colete e carro blindado até que não houvesse mais perigo ou se aposentasse, como estava previsto, no final do ano. 

Os mandantes e executores não poderiam ser presos até que houvesse início de execução do plano, até que o primeiro tiro fosse disparado - não há na legislação penal brasileira previsão de crime de conspiração, como acontece em outros países.  Felix seria a isca.  Nada poderia ser feito.  Não havia um crime de ameaça. O plano de execução havia sido descoberto por acaso.  A cogitação, o planejamento e os preparativos são impuníveis.

Quando Pedro da Maria saiu da audiência parecia estar com a alma em rebuliço.   Ao ser levado para a carceragem do forum foi informado por um dos policiais da escolta que havia uma ordem da Organização, vinda do presídio, para matar Felix.   Ao retornar para a penitenciária era visível o seu ar de preocupação, cara fechada. Com voz firme Pedrão encarou os presos que o acompanhavam na caçamba do “Coração de Mãe” e mandou o recado:

- Alguém ta passando por cima de minha autoridade de Primeiro Ministro prá tentar me incriminar.  Prá botá os home no meu pé. Isso é coisa dos paulista. Felix é gente boa! Avisa pro filho-da-puta do Cara-de-Cobra que ele vai arder no fogo do meu inferno.

Comments 

 
0 #1 Alexandre Eduardo Weiss 2009-11-06 18:48
Ótimo policial!

Bom na construção das cenas e na simplicidade (clareza) dos diálogos. Já estou aguardando, ansioso, o Capítulo 4.

Parabéns,
Abraços
Quote
 

Add comment


Security code
Refresh