A conspiração - Parte 4

 A conspiração – parte 4
 
 -Alguém ta passando por cima de minha autoridade de Primeiro Ministro prá tentar me incriminar.  Prá botá os home no meu pé. Isso é coisa dos paulista. Felix é gente boa! Avisa pro filho-da-puta do Cara-de-Cobra que ele vai arder no fogo do meu inferno.  

Um remanejamento descuidado de presos havia concentrado em Campo Grande diversos “ministros” de presídios de São Paulo e Mato Grosso do sul.  Um choque de lideranças seria inevitável, Pedro estava ameaçado. 

A tensão era grande, o consumo de drogas havia aumentado extraordinariamente com a superpopulação.  Os agentes carcerários já haviam de fato perdido o controle, uma rebelião estava prestes a eclodir.  Era grande a concentração de homens violentos. A administração dos presídios não sabia o que fazer já que os bondes não retornavam para as origens. Um presídio não aceitava de volta interno que havia conseguido remanejar. 

Pedro convocou uma reunião de ministros no Presídio Central.  Da Maria sabia que alguma coisa precisava ser feita para chamar a atenção das autoridades que haviam feito o remanejamento desastroso.  Um bonde gigantesco precisava partir levando muitos adversários.  Acostumado com rebeliões sabia que quebrar o presídio, danificar instalações elétricas e hidráulicas, queimar colchões e destruir o telhado, com aquela quantidade de gente presa, iria transformar o local em um inferno.  O que Pedro mais temia nessas ocasiões era a depredação.  O pouco conforto que tinham seria destruído em poucas horas. 

Presidindo a reunião no pátio, em um dos lados do campo de futebol, o Primeiro Ministro lembrou que já havia conversado com o Presidente da Organização em São Paulo, embora não houvesse subordinação, sobre o que estava acontecendo em Campo Grande e na ocasião foi sugerido que o seqüestro de algumas autoridades parecia ser a forma mais eficaz de pressionar por melhores condições no interior do Presídio. Fazer reféns entre os carcereiros não surtiria grande efeito porque eles não se tratavam de pessoas notórias que pudessem causar estrépito na mídia. 

Cara-de-Cobra ou Miro - Valdomiro String da Silva - homem enorme, violento, cumprindo pena por diversos homicídios, tráfico de drogas e muitos latrocínios - em todo roubo ele matava pelo menos uma pessoa - levantou-se de repente e com seu vozeirão estremeceu o solário:

- Olha aqui Pedrão, vamo deixá de quais, quais, quais, tá ligado? Tu sabe que eu já fui Primeiro Ministro várias vezes. Já fui cabeça de rebeliões em São Paulo, tá ligado? Lá, quando a Organização parte para o confronto, o objetivo é amedrontar a população, afrontar o governo, dar demonstração de força para poder barganhar, tá ligado?  A gente tem que ser terrorista.  Vamos queimar gente e quebrar tudo, tá ligado?

Valdomiro era o principal adversário, com ele não haviam sutilezas e melindres, ambos eram puro terror, mas Pedro havia começado a reunião propondo ação que iria levar o confronto a se estender por vários dias já que poderia haver intensa negociação.

Os ministros se entreolharam, pareciam preferir a proposta de Miro, mas ficaram em silêncio esperando a reação de Pedrão.  Cara-de-Cobra representava a turma dos vinte e dois oriundos de São Paulo, sabia que uma ação violenta iria mobilizar a mídia e forçar o rápido remanejamento dos presos. Os paulistas sabiam que não haveria outro Carandiru, as comissões de direitos humanos e a imprensa não iriam permitir.  Os organismos policiais e autoridades do judiciário trabalhariam pressionados pela mídia. Os presos queriam um bonde para São Paulo e sabiam que com ações terroristas poderiam conseguir.

- Olha aqui meu irmão, não tô aqui prá discutir contigo.  O Primeiro Ministro aqui sou eu e tu me respeita.  Tô propondo uma solução negociada prá gente não ficar na merda aqui dentro com tudo quebrado enquanto que você e os outros paulistas vão no bonde.  Agora, seu porra! Se tu qué faltá com o respeito comigo e com meu pessoal que tá aqui há mais tempo fica avisado qui aqui o côro come.  Quem manda nesta merda aqui sou eu! ...Ta encerrada a reunião!

Silêncio no pátio.  Miro empalideceu. Pela primeira vez na vida “piscou e trancou o cu de medo”.

Pedro da Maria levantou-se e se retirou protegido pelo seu estado-maior, composto por Nó Cego, Garrinchinha, Estripulia, Pano Branco e Ivete, todos ministros, veteranos em Campo Grande e cumprindo pena por prática de diversos homicídios.  Assassinos cruéis e temidos pelos outros presos matavam gente por qualquer ninharia, por uma simples bagana. 

Ivete era especialista em cerol – barbante untado com cola e vidro de lâmpada moído – já havia degolado cinco ou seis enquanto cumpria pena.  O total de suas condenações ultrapassava cento e cinqüenta anos. Travesti, com nádegas e peitos injetados com silicone, espancava inclusive aqueles que se recusavam a se deitar com ele ou se mostravam impotentes na hora da penetração. 

Nó Cego era o intelectual do grupo, o ministro encarregado de elaborar petições mal redigidas de Habeas Corpus e Revisão Criminal para os internos eleitores de Pedrão - peças processuais que não precisam ser assinadas por advogado. Além de violento homicida, era um estelionatário frustrado, sempre iniciava suas falas com um “... veja bem”.  Seus golpes nunca deram certo, foi preso e condenado por todos que tentou.  Mal olhava nos olhos do chefe, sentia um misto de respeito e pavor, seria capaz de dar a sua vida para protegê-lo mesmo porque, se não o fizesse, seria morto.

Os demais, Garrinchinha, Estripulia e Pano Branco eram ferozes matadores e especialistas em fugas. Sempre que Pedrão precisava de “serviço especial” fora dos muros da prisão eram eles que executavam.  Muitas vezes fugiam e retornavam sem que a administração penitenciária notasse. Conheciam os agentes penitenciários que podiam corromper durante os plantões. Havia uma relação de confiança entre eles, eram velhos cadeireiros. O trio colecionava inimigos, não tinham família, preferiam o presídio onde tinham respeito, proteção, casa e comida.

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