A conspiração - parte 5

A conspiração - parte 5

 Pedro da Maria levantou-se e se retirou protegido pelo seu estado-maior, composto por Nó Cego, Garrinchinha, Estripulia, Pano Branco e Ivete, todos ministros, veteranos em Campo Grande e cumprindo pena por prática de diversos homicídios.  Assassinos cruéis e temidos pelos outros presos matavam gente por qualquer ninharia, por uma simples bagana. 

Ivete era especialista em cerol – barbante untado com cola e vidro de lâmpada moído – já havia degolado cinco ou seis enquanto cumpria pena.  O total de suas condenações ultrapassava cento e cinqüenta anos. Travesti, com nádegas e peitos injetados com silicone, espancava inclusive aqueles que se recusavam a se deitar com ele ou se mostravam impotentes na hora da penetração. 

Nó Cego era o intelectual do grupo, o ministro encarregado de elaborar petições mal redigidas de Habeas Corpus e Revisão Criminal para os internos eleitores de Pedrão - peças processuais que não precisam ser assinadas por advogado. Além de violento homicida, era um estelionatário frustrado, sempre iniciava suas falas com um “... veja bem”.  Seus golpes nunca deram certo, foi preso e condenado por todos que tentou.  Mal olhava nos olhos do chefe, sentia um misto de respeito e pavor, seria capaz de dar a sua vida para protegê-lo mesmo porque, se não o fizesse, seria morto.

Os demais, Garrinchinha, Estripulia e Pano Branco eram ferozes matadores e especialistas em fugas. Sempre que Pedrão precisava de “serviço especial” fora dos muros da prisão eram eles que executavam.  Muitas vezes fugiam e retornavam sem que a administração penitenciária notasse. Conheciam os agentes penitenciários que podiam corromper durante os plantões. Havia uma relação de confiança entre eles, eram velhos cadeireiros. O trio colecionava inimigos, não tinham família, preferiam o presídio onde tinham respeito, proteção, casa e comida.

O Primeiro Ministro Da Maria sabia, depois da discussão, interrogatório no forum e ameaça a Valdomiro, que não podia se descuidar. A vigilância do estado-maior ficou mais intensa.  O perigo, além do futum de suor, urina, cigarro, crack e maconha, pairava no ar nos pavilhões, alas e galerias do presídio.  Os carcereiros sabedores do ambiente de guerra iminente dividiram os grupos destinando horários de pátio diferentes.

Januário - cela-livre - preso de bom comportamento, velho, magrinho, doente, humilde, fazia como sempre e a qualquer hora, a faxina do piso da galeria, varrendo e empurrando a serragem umedecida com material de dedetização.

Naquela manhã as grades estavam abertas e os presos conversavam, fumavam, jogavam cartas e dama, reunidos em pequenos grupos nas portas e no interior de algumas celas, dificultando o trabalho de Januário.  Muitos presos estavam nas oficinas.  Como não havia trabalho para todos, os presos com muito tempo de pena a cumprir e irrecuperáveis, os doentes, perigosos, indolentes e os viciados em crack, que não se interessavam por nada e viviam prostrados, ficavam na ociosidade total.

A administração da cadeia cedia a vaga de trabalho para os condenados opostos, para aqueles que queriam cumprir sua pena e sair o mais rápido possível – nos presídios o tempo de condenação sofre redução na proporção de três dias de trabalho por um de pena.

Pedro, junto com seus ministros, fazia o planejamento para o seqüestro das autoridades e a morte de Valdomiro. Nos próximos dias haveria uma cerimônia religiosa no pátio.  Estariam presentes o Arcebispo, o Secretário de Justiça, autoridades do Sistema Penitenciário e diversos jornalistas. Naquela ocasião fariam os reféns e na confusão Cara-de-Cobra seria assassinado. A ação rapidamente seria divulgada pela mídia e, com certeza, as negociações acompanhadas pelas televisões em cadeia nacional.  

Ivete participava da conversa sentado no chão bem em frente à porta da cela, aos pés da cama de Garrinchinha, onde Pedrão estava deitado, costurava um baby-doll tosco rasgado durante uma de suas violentas noites de sexo.  Garrinchinha, Estripulia e Pano Branco fumavam um baseado.  Nó Cego, no fundo da cela atendia a um de seus “clientes” enquanto bebia uma dose de Maria-louca, bebida feita com álcool da enfermaria diluido, açúcar e limão.

Pedro da Maria estava furioso com a atitude de Cara-de-Cobra.  A discussão na reunião, o fato de saber que poderia ser morto a qualquer momento e a insinuação lançada nos meios policiais de que o planejamento do assassinato de Felix era de sua autoria estavam deixando-o nervoso.  Toda noite fumava um baseado, hábito que havia abandonado há algum tempo, para se acalmar e ver se conseguia dormir um pouco.

Januário, segurando seu vassourão, passou pela porta da cela e foi direto pedir a Estripulia que o deixasse dar um “tapa” no baseado.

- Você tá com a boca cheia de ferida, véio!  Mal consegue respirar, deve tá até tuberculoso.  Espera aí... segura essa bagana e sai fora, pode ficar com ela.

O velho detento mais que depressa segurou aquele pedaço todo babado de cigarro de maconha e deu cinco ou sei tragadas fortes. Quando já estava queimando os dedos, amassou o que restava, foi até a porta da cela e o jogou no meio da serragem. 

Com as costas voltadas para o interior do cubículo pegou o vassourão e repentinamente girou a parte superior do cabo, dividido em duas partes, fazendo aparecer um pedaço de vergalhão afiado, imediatamente voltou-se e cravou o chuço no lado esquerdo do peito de Pedro da Maria.  Pego de surpresa Pedrão só teve tempo de desviar levemente os franzinos braços de Januário.

 Ivete deu um grito esganiçado, segurou o velho pelo fundo das calças, levantou-se e deu-lhe um tapa tão violento que lançou o corpo esquálido a cerca de três metros de distância no meio da galeria.

Garrinchinha, Estripulia e Pano Branco mataram Januário ali mesmo chutando repetidamente a sua cabeça e pisando em seu peito. 

Ivete aos gritos chamou os agentes penitenciários que imediatamente socorreram Pedrão e o levaram para o hospital penitenciário.

Ivete estava histérico e mobilizou todo o pavilhão com seus gritos. 

Começou o quebra-quebra, colchões foram incendiados e internos agredidos.  Como mágica apareceram inúmeras armas: porretes, chuços e facas de todos os tipos.  Correrias para todos os lados.  Alguns procurando se esconder, outros correndo atrás de seus inimigos.  Todo mundo querendo ajustar contas, matar para não ser morto.

Os portões das galerias foram rompidos pelos internos sublevados.  Os agentes e policiais de plantão, impotentes, prudentemente retiraram-se do presídio e acionaram o batalhão especializado da Polícia Militar.  No corre-corre esqueceram o diretor e alguns funcionários administrativos, feitos imediatamente reféns pelo grupo de Pedrão que, nesse momento, já se apresentava como um pelotão organizado engrossado pelos sobreviventes de duas outras galerias. 

O pessoal de Campo Grande, liderado pelo estado-maior de Pedro da Maria, partiu em busca da turma de Cara-de-Cobra. 

Ninguém precisava lhes dizer que Januário havia sido comprado por Valdomiro.  No bolso de sua calça imunda haviam sido encontradas 20 trouxinhas de maconha com endolação característica do bando de São Paulo.  Sujeito velho, doente, viciado, pobre, humilde, não tinha cacife para ter tal quantidade de droga em seu poder.  Na “lei da cadeia” isso era prova absoluta.

- Cadê Cara-de-Cobra, filho-da-puta?  Disse Nó Cego agarrando Tadeu pela garganta ao mesmo tempo em que Pano Branco lhe dava uma violenta estocada nos rins.  Tadeu apontou prá última cela no fundo da galeria, mal teve tempo de gemer de dor porque Ivete já lhe passou o cerol na garganta.  Ficou no chão estrebuchando num mar de sangue.

Brocoió, braço direito de Miro, balançava pendurado pelos pés em uma tereza no alto de uma grade, vísceras à mostra. Havia sido sangrado por Estripulia, Garrinchinha e outros detentos.  Zumbi, o mais violento do grupo de Valdomiro, havia sido decapitado não se sabe por quem.  Sua cabeça estava espetada em um cabo de vassoura amarrado em uma das grades.

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