Uma homenagem ao Fluminense

Uma homenagem ao Fluminense

Veja o ilustre passageiro a que ponto cheguei: eu, um flamenguista convicto, fazendo homenagem ao Fluminense, mas não se desesperem os rubro-negros, não estou traindo as cores do manto sagrado, apenas estou usando o renascimento tardio do Flu no Campeonato Brasileiro como pretexto para colar um texto de Nelson Rodrigues.

Divirtam-se e vejam os recursos, ganchos e tiradas literárias do Grande Nelson

Personagem da semana

Por Nelson Rodrigues


Amigos, os idiotas da objetividade negam o milagre. Mas o que foi a deslumbrante vitória do Fluminense, senão isso mesmo ou seja um cínico e deslavado milagre? Pela primeira vez na história do homem, um lanterninha e, pior do que lanterninha, um time "sem conjunto, nem valores individuais" - é campeão contra tudo e contra todos.

E, antes de continuar, duas palavras sobre o profeta. Depois dos 3x1 de ontem, ele está promovido e está reabilitado. No ano passado, quase acertou, quase. Mas este ano soou a sua grande hora. Ele disse que o Fluminense ia ser campeão e o tricolor cinge uma faixa épica, a mais linda, a mais merecida que se possa imaginar. Desde ontem, o profeta podia desfilar na bandeja, e de maçã na boca, como o tal leitão assado.

Claro que a grande vitória não se improvisa, nem depende de fatores circunstanciais. Há seis mil anos estava escrito que, ontem, Joaquinzinho ia encaçapar o primeiro e, em seguida, Jorginho e Gílson Nunes iam estourar às redes do Bangu. O nosso título é, pois, uma fatalidade de sessenta séculos. Mas é óbvio, por outro lado, que a Fatalidade precisa ser umedecida, precisa ser lubrificada pelo suor do homem. Houve momentos, na peleja, em que o Fluminense lutou tanto que o suor do time passou a ser grosso e elástico como o dos cavalos.

O bonito, o gostoso, o sublime do campeonato é que lutamos em campo e fora do campo. Por vezes, além do adversário, juiz e bandeirinhas - até os imponderáveis se juntavam contra nós. Por exemplo: o meu fraterno amigo Armando Nogueira. Um dia, ou noite, sei lá, o confrade teve uma visão de Joana D’Arc. Aos seus olhos, o Fluminense aparecia de lanterninha na mão. Já no dia seguinte, o Armando, que é um estilista, um Flaubert da bola, fez a frase histórica: "O Fluminense é o lanterninha dos grandes" e mais: o "Fluminense não tem nem conjunto, nem valores individuais". Nada, portanto.

Assim foi criada a humildade tricolor. Em vão, parentes, conhecidos e fornecedores, protestavam junto ao Armando: "Mas o Fluminense é líder de dois anos!". Amigos, ninguém mais obstinado do que o sujeito que é portador de um erro colossal. Repito: o ser humano acredita mais nos seus equívocos do que nas suas verdades. Justiça se lhe faça: o Armando foi fiel ao seu erro até o fim. De mais a mais, ele defendia duas frases e o colega põe a retórica acima da realidade. Para ele, um efeito literário vale mais que duzentos fatos.

Não se pense que o Fluminense recusou as sandálias da humildade. Sendo um grande clube, o maior do mundo - tem direito de ser humilde. Portanto, passamos a andar, com um imaginário passarinho no ombro, segundo o figurino franciscano. A cidade foi testemunha auditiva e ocular das nossas provações, só comparáveis às de Jó. Com uma agravante para o nosso lado: é que a Jó foi poupado o estilo do Armando e o sarcasmo do Scassa. E outra forma de martírio que Jó não conheceu: as piadas hediondas.

Eu poderia falar ainda de juízes, de bandeirinhas, que fizeram o diabo conosco. Mas vamos deixar isso pra lá. O fato é que, desde quarta-feira passada, o Fluminense estava ungido. Só os lorpas, os pascácios, os bovinos, não percebiam que cada uma de nossas cabeças levava um halo intenso e lívido de campeão. O olhar de qualquer "pó de arroz" vazava luz. Há seis mil anos estava escrito.

A festa da cidade começou na manhã dominical. Por toda a parte, apareciam delirantes bandeiras tricolores. Toda a tricolagem partia para o Maracanã na certeza profética. Pela manhã, o Wilson Figueiredo batia o telefone para mim: "Deus te ouça, Wilson, Deus te ouça!" E um turista que por aqui passasse, e visse tantas bandeiras tricolores, havia de anotar no seu caderninho: "Começou foi à Nova Revolução Francesa!" Finalmente, o jogo. Primeiro tempo, Bangu 1x0. Mas veio o segundo e o tricolor levou tudo de roldão, tudo. Nunca um campeão mereceu tanto um título.

Já ia me esquecendo do personagem da semana. São três: primeiro Tim, que foi um maravilhoso comandante. Ele soube guiar a equipe, técnica e taticamente, e, ao mesmo tempo, transmitir-lhe uma enorme sede, uma fome enorme do título. Ontem, quando o jogador do Fluminense caía, vinha abraçado na sua paixão. Outros dois personagens: Jorginho e Gílson Nunes, os dois garotos das extremas. Vocês viram o "goal" de Jorginho: perfeito e irretocável como um verso eterno. E em seguida, o de Gílson Nunes. O menino encheu o pé e houve um clarão no estádio. Amigos, ontem não houve noite na cidade. O que todos viram foi a chama do grande sol do Fluminense, com o seu patético esplendor.

 

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