A conspiração - Final

A conspiração - Final

Os portões das galerias foram rompidos pelos internos sublevados.  Os agentes e policiais de plantão, impotentes, prudentemente retiraram-se do presídio e acionaram o batalhão especializado da Polícia Militar.

No corre-corre esqueceram o diretor e alguns funcionários administrativos, feitos imediatamente reféns pelo grupo de Pedrão que, nesse momento, já se apresentava como um pelotão organizado engrossado pelos sobreviventes de duas outras galerias.

 O pessoal de Campo Grande, liderado pelo estado-maior de Pedro da Maria, partiu em busca da turma de Cara-de-Cobra.

Ninguém precisava lhes dizer que Januário havia sido comprado por Valdomiro.  No bolso de sua calça imunda haviam sido encontradas 20 trouxinhas de maconha com endolação característica do bando de São Paulo.  Sujeito velho, doente, viciado, pobre, humilde, não tinha cacife para ter tal quantidade de droga em seu poder.  Na “lei da cadeia” isso era prova absoluta.

 - Cadê Cara-de-Cobra, filho-da-puta?  Disse Nó Cego agarrando Tadeu pela garganta ao mesmo tempo em que Pano Branco lhe dava uma violenta estocada nos rins.  Tadeu apontou prá última cela no fundo da galeria, mal teve tempo de gemer de dor porque Ivete já lhe passou o cerol na garganta.  Ficou no chão estrebuchando num mar de sangue.

Brocoió, braço direito de Miro, balançava pendurado pelos pés em uma tereza no alto de uma grade, vísceras à mostra. Havia sido sangrado por Estripulia, Garrinchinha e outros detentos.  Zumbi, o mais violento do grupo de Valdomiro, havia sido decapitado não se sabe por quem.  Sua cabeça estava espetada em um cabo de vassoura amarrado em uma das grades.

A fumaça da queima dos móveis, papéis da administração e colchões das celas, tomava todo o presídio.  Grande quantidade de sangue manchava os pisos e paredes das galerias.  Cara-de-Cobra foi encontrado no fundo de uma cela completamente esquartejado.  O que restou do corpo havia sido queimado.

Tão repentinamente como começou a rebelião acabou, bastou uma ligação telefônica de Pedrão para Ivete, agora mais calmo porque Pedro lhe disse que havia tido somente um pulmão perfurado e estava se recuperando.  Toda aquela barbárie havia durado apenas quatro horas. 

O presídio como sempre havia sido destruído. 

Pedro orientou seu grupo para liberarem os reféns - ninguém ficou ferido - em troca apenas de colchões novos.

A exigência foi prontamente aceita pela experiente Secretaria de Justiça, eis que mantinha estrategicamente um depósito abarrotado com móveis e petrechos próprios para equipar os presídios do Estado.

Ficou ainda combinado que os presos se encarregariam da limpeza e pintura dos prédios.

Um inquérito policial foi instaurado, mas decorridos três anos estava parado porque não se conseguiu apurar a autoria da morte de 35 pessoas. Muitos internos ouvidos, inclusive o estado-maior de Pedrão, disseram que no momento da rebelião estavam no interior de suas celas e não viram nada. Vinte e oito disseram que estavam dormindo. Dezenove afirmaram que na ocasião estavam no banheiro com diarréia, o jantar do dia anterior não estava bom.

Pedro da Maria, sem saber das investigações e do entendimento da Polícia quanto ao mandante do atentado a Felix, soube no hospital que dois dos pretensos executores ainda se encontravam em Campo Grande.

Não querendo ser acusado injustamente, transmitiu suas preocupações a Garrinchinha, Estripulia e Pano Branco.

Passados alguns dias, presídio tranqüilo, um tal de Gringo e um outro conhecido por Paraguaio, moradores de Ponta Porã, foram encontrados mortos num quarto de hotel de décima categoria perto da rodoviária.

Os inquéritos foram arquivados com o carimbo de “Autoria Desconhecida”.

Apesar de todo o sigilo, o plano de Valdomiro havia vazado.  O Serviço de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública havia interceptado as suas ligações telefônicas com São Paulo.  Um informante completou dando todos os detalhes do plano para os agentes do serviço de inteligência. 

Pedrão foi descartado como suspeito. Não foi nem mesmo interrogado pela polícia, em parte porque a ligação telefônica interceptada denunciou a tentativa de incriminá-lo e, por outro lado, porque o próprio juiz não acreditava na hipótese.  Todos sabiam do respeito de Pedro pelo magistrado.  Os pretensos executores foram identificados, mas não poderiam ser presos.

Os envolvidos, apesar de conhecidos, não poderiam ser processados.

A segurança e aparato bélico no entorno do forum foi atenuado porque nas datas previstas o evento não se consumou. 

A segurança pessoal de Felix foi mantida. Alheios ao que se passava no interior do presídio, todos os seus passos eram seguidos e vigiados por policiais.  Depois de quase vinte anos como magistrado não havia mais liberdade.  Por ironia do destino o direito de ir e vir do juiz estava cerceado, algo semelhante ao que acontecia com os homens que havia condenado durante sua vida profissional.

Não se podia afirmar que não iriam tentar matá-lo, que o plano dos presidiários havia sido abortado e esquecido. 

No universo do submundo há uma gama imensa de pessoas com graves problemas psicológicos e doenças mentais, podem atentar contra a vida de uma pessoa pelo simples fato de tal pessoa ser publicamente conhecida ou simplesmente para serem reconhecidas por determinadas “organizações” ou “agremiações”. 

Uma verdadeira paranóia passou a rondar a vida de Felix e sua família.

O juiz passou a fazer intensos treinamentos de tiro e defesa pessoal.

Sempre que pessoas desconhecidas da escolta chegavam à sua casa precisavam mostrar as credenciais e eram revistados.

Os funcionários dos correios, os leitores dos registros de gás, energia elétrica e água, encarados como inimigos em potencial.

Uma ida ao dentista era uma verdadeira operação de guerra, antes de adentrar no gabinete dentário era feita pelos policiais uma varredura completa no consultório.

Qualquer invólucro mais volumoso que chegasse em meio a correspondência diária do juiz era encarado como algo prestes a explodir, esvaziavam o prédio e requisitavam a presença do esquadrão anti-bomba.

A vida de Felix e sua família durante oito meses se tornou um inferno.  Para Felix só restava uma saída, se aposentar e mudar de cidade, mas isso iria adiantar?  Os tentáculos da “organização” não poderiam alcançá-lo?

Ironicamente nada se poderia fazer contra as pessoas que elaboraram o plano, que conspiraram contra a vida do magistrado.  A conspiração havia sido descoberta por um acaso, não houve ameaça.

A figura típica mais próxima no Direito Penal Brasileiro é o limitado crime de formação de quadrilha ou bando. A apenação prevista é ridícula em face do prejuízo causado e do terrorismo contido na conspiração.

A pessoa alvo é obrigada a esperar que o primeiro tiro seja disparado contra ela, para poder agir, para movimentar a máquina do Estado. 

Não há amparo legal.  Será sempre o alvo a espera da flecha, a isca a espera do predador.

 Fim

Comments 

 
0 #1 Manuela 2010-07-24 02:21
Gostei muito de reler "A Conspiração".
Qual o próximo conto?
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