Sócrates, Xenefonte, Querefonte e Cicuta

Sócrates, Xenofonte, Querefonte e Cicuta

 

Muitas pessoas podem estar se perguntando: porque tanta insistência com Sócrates?

 Por um fato muito simples: ao pesquisar por filosofia só me deparo com história da filosofia.

 Quero filosofar, mas, na maioria das vezes, não encontro resposta nas minhas pesquisas.  Só professores de história da filosofia se apresentam. Alguns até se intitulam erradamente como filósofos, mas sem se darem conta do erro: são ótimos conhecedores da história.

O pior de tudo é que a história da Grécia clássica e da filosofia é fascinante. Permite algumas divagações.

Por ora ficamos com a história, mas já encontrei gente pra filosofar, excelentes filósofos.

Sócrates não deixou nada escrito, então a primeira pergunta é sobre a sua vida e sobre o processo que o levou a uma “overdose” de cicuta.

Muitos pensadores da época de Sócrates fizeram alusão à sua existência. Não temos como duvidar de tal fato, como também não há que se duvidar da existência de um processo onde aparece Sócrates como réu por negar a existência dos deuses oficiais da cidade de Atenas e por corromper a juventude.

As referências aparecem nas obras de Platão, Xenofonte, Aristófanes e Aristóteles.

Platão e Xenofonte eram homens ricos e cultos.  Diz a história que o primeiro chegou a fundar a “Academia”, que perdurou por séculos,  após a morte de Sócrates. Ambos deixaram tantos escritos que merecem estudos apartados, individuais.

Xenofonte tem uma história mais rica ainda em razão de ser um intelectual e um guerreiro-mercenário.

 Estou convencido que estes dois, com suas culturas, ilustraram e enriqueceram a real história do filósofo.

Parece que a acusação de subversivo se deve ao fato de que um de seus acusadores – Ânito – tinha um filho que teria sido discípulo do filósofo.  Em casa, o rapaz ria e debochava dos valores espirituais e morais de seu pai.

 Já naquela época, como agora os corruptos, usava-se a máquina do estado para atender interesses próprios.

 Metelo, Lícon e Ânito, não tiveram dúvidas: formularam e acresceram a acusação.

 Apesar do brilhante discurso, como relatado por Platão e Xenofonte, Sócrates foi condenado à morte - por um júri composto por 501 cidadãos – por maioria de votos (281 a 220).

 Pelo que contam, a impressão que fica é que o processo, a sentença e a execução, foi um grande acontecimento, um evento em Atenas, motivado por interesses políticos.

Acredito que os adversários políticos dos governantes de Atenas tudo o que diziam a respeito da situação política atribuiam a Sócrates, pessoa humilde, que pertencia a uma casta inferior e que talvez sofresse de algum tipo de doença mental, pois são inúmeras as passagens onde aparece o relato ou o testemunho de pessoas que o encontravam pelas ruas absorto em seus pensamentos ou falando sem haver ouvinte.

Platão o encontrou certa vez absorto, olhando para o infinito, imóvel e descalço sobre a neve;

Em outras passagens ele é retratado como completamente alheio à sua família;

Não trabalhava, não cobrava por seus discursos, como os sofistas, que  atuavam como uma espécie de assessores dos políticos da época: Faziam seus discursos e cobravam por eles. Exatamente igual aos assessores de presidentes, governadores e prefeitos de grandes cidades, como acontece hoje;

Não  se alimentava ou cuidava de sua higiene pessoal: esfomeado e imundo;

Estava sempre mal vestido e descalço;

Há alguma referência ao fato de abusar de bebidas alcoólicas;

Sócrates parece que também ouvia vozes: considerava-se protegido por um “daimon”, que pode ser traduzido por gênio, demônio, espírito, cuja voz dizia ouvir desde a infância e que o aconselhava a se afastar do mal.

Na época, parece que as pessoas tinham prazer em fazer longas viagens até o Templo de Apolo, onde havia uma pitonisa que dizia ser intermediária dos deuses.

Xenofonte esteve lá aconselhado por Sócrates a quem perguntou se deveria se unir ou não ao exército de Ciro.

Sócrates lhe disse que fizesse tal pergunta aos deuses, já que ele não era adivinho – na Grécia Clássica havia de tudo um pouco - Xenofonte, entretanto, ao chegar ao templo perguntou para qual deus deveria orar para ser bem sucedido nas batalhas que iria travar.

Ao voltar - diz Xenofonte - falou com Sócrates a respeito da resposta da pitonisa. Irritado Sócrates falou que agora deveria ele procurar a resposta em seus pensamentos, pois havia feito a pergunta errada.

Eu entendo essa rebeldia de Xenofonte como um sinal de que ele se interessava por ouvir o filósofo, mas não era um “discípulo”, como a história e alguns historiadores se preocupam em retratá-lo.

Outra passagem a respeito do Templo de Apolo encontramos na viagem de Querefonte, que segundo alguns autores, teria mudado completamente a vida de Sócrates.

Querefonte ao voltar do templo teria dito ao amigo que havia perguntado à pitonisa quem seria o mais sábio de Atenas e ela teria dito que Sócrates era o homem.

Querefonte disse também que havia visto uma inscrição no Templo de Apolo: “conhece-te a ti mesmo”.

 Ao ouvir o amigo, Sócrates ficou transtornado e passou a vida a perguntar para ele e para todos: “Quem sou eu?” ou “Quem é você?”.

Terminou desistindo e concluindo, como falei na matéria anterior: “Só sei que nada sei”.

A cicuta era usada na antiguidade como anestésico, algo semelhante à cocaína hoje, na forma de supositório inclusive, para atenuar as dores 

de tumores da próstata, hemorróidas, cólicas menstruais, dores de dente, etc.

Foi Querefonte, portanto, seu amigo, quem agravou a sua situação de angústia mental a ponto de desistir das próprias indagações, da razão  da sua própria vida e preferir a “overdose” do supositório-venenoso ofertado por seus algozes.

Não foi Xenefonte quem lhe deu a notícia do aforismo do templo, embora, tenho a impressão, todos na época tivessem conhecimento do “conhece-te a ti mesmo”, pois as viagens a Delphos eram uma constante.

Embora alguns professores da história da filosofia digam que ele ao afirmar “só sei que nada sei”, estava calçando as sandálias da humildade e afirmando a sua própria sabedoria.  Na realidade, segundo outros mestres, professores e doutores, ele estava reconhecendo a sua impotência em resolver o aforismo esculpido no Templo de Apolo, porque apesar de ser de origem humilde - filho de artesão e uma parteira - não há sinais de humildade de espírito, mesmo porque ele ostentava o título de “mais sábio de Atenas”, ofertado pelos deuses: a pitonisa do templo era considerada “intermediária” dos deuses.

E você, o que acha?

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Comments 

 
+1 #2 O Comentarista 2010-08-17 22:47
Caro ldhec, há farto material sobre a antiguidade clássica grega disponível para estudo e, até mesmo, entretenimento. Não consigo ver o preconceito... seria interesante que vc indicasse o ponto exato.Nada transportei para o dia de hj. Li e interpretei...
Vc. discorda? Ok!
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+1 #1 ledhec 2010-08-17 14:23
Caro internauta ;
tu leu bastante sobre o tema; confesso que achei teu texto, pretencioso, queres transportar atitudes, interpretações e julgamentos, aos dias de hoje, até, com preconceito, como se houvesse farto material disponível para estudo. Concordo
com os dados históricos mas, discordo do teu posicionamento.
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