O tapa na cara

O tapa na cara 

Esta matéria foi publicada por ocasião de uma agressão/revide, entre dois jogadores do Palmeiras, no Campeonato Brasileiro de 2009. Como o tapa na cara é aviltante... pedi o auxílio de Nelson Rodrigues... Lembrei de sua crônica...

“Tenho um amigo que faz o seguinte: — chega em casa, tranca-se na alcova, tapa o buraco da fechadura e só então, na mais rigorosa intimidade — apanha da mulher.” (Nelson Rodrigues – A conveniência de ser covarde – Manchete Esportiva – 1955).

Aqui no Rio e em muitas partes do Brasil o tapa é macho, mas o corretor ortográfico do Word e os léxicos insistem em dizer que o tapa é fêmea.

Como o povo consagra o uso, e diante da violência do tapa, vamos ajustar que o tapa é mulher-macho ou, como dizia um amigo meu nos anos 70: - essa mulher é “fêmeo”.

 Não há agressão mais aviltante, humilhante, que o tapa na cara.  Em qualquer situação o tapa humilha. Seja como revide ou não.

Há um barulho estalado que chama a atenção de todos.  Além disso... a marca que o tapa deixa: fica nas bochechas do infeliz as  impressões digitais do agressor.

Prestem atenção: em qualquer jogo de futebol os jogadores, vez por outra, agridem seus adversários com cotoveladas e pontapés. Dificilmente alguém revida.

Mas, se alguém der um tapa no rosto de seu adversário... o tempo fecha!

O tapa na cara é semelhante ao pé-na-bunda: é a suprema humilhação.

Ambos foram inventados para humilhar o coitado do agredido.

Qualquer adolescente sabe disso: briga de macho é com soco e pontapé em qualquer parte do corpo, mas tapa na cara e pé-na-bunda não pode.

Eu vi o jogo do Palmeiras e achei que Obina foi injustiçado... ele reagiu!  Tapa na cara não pode...

 A propósito, vejam a deliciosa crônica de Nelson Rodrigues, publicada na Manchete Esportiva, em 17/12/1955.

 Lógico! Tem tapa na cara:

"A conveniência de ser covarde

 Há tempos, fui à Rua Bariri, ver um jogo do Fluminense. E confesso: — sempre considerei Olaria tão longínqua, remota, utópica como Constantinopla, Istambul ou Vigário Geral. Já na Avenida Brasil, comecei a sentir uma nostalgia e um exílio só equiparáveis aos de Gonçalves Dias, de Casimiro de Abreu. Conclusão: — recrudesceu em mim o ressentimento contra qualquer espécie de viagem. Mas, enfim, cheguei e assisti à partida. Nos primeiros trinta minutos, houve tudo, rigorosamente tudo, menos futebol. Uma vergonha de jogo, uma pelada alvar, que não valia os cinco cruzeiros do lotação. E, súbito, ocorre o episódio inesperado, o incidente mágico, que veio conferir ao match de quinta classe uma dimensão nova e eletrizante.

Eis o fato: — um jogador qualquer enfiou o pé na cara do adversário. Que fez o juiz? Arremessa-se, precipita-se com um élan de Robin Hood e vem dizer as últimas ao culpado. Então, este não conversa: — esbofeteia o árbitro. Ora, um tapa não é apenas um tapa: — é, na verdade, o mais transcendente, o mais importante de todos os atos humanos. Mais importante que o suicídio, que o homicídio, que tudo o mais. A partir do momento em que alguém dá ou apanha na cara, inclui, implica e arrasta os outros à mesma humilhação. Todos nós ficamos atrelados ao tapa.

Acresce o seguinte: — o som! E, de fato, de rodos os sons terrenos, o único que não admite dúvidas, equívocos ou sofismas é o da bofetada. Sim, amigos: — uma bofetada silenciosa, uma bofetada muda, não ofenderia ninguém, e pelo contrário: — vítima e agressor cairiam um nos braços do outro, na mais profunda e inefável cordialidade. É o estalo medonho que a valoriza que a dramatiza, que a torna irresgatável."

Pois bem: — na bofetada de Olaria não faltou o detalhe auditivo. Mas o episódio não esgotara ainda o seu horror. Restava o desenlace: — a fuga do homem. Pois o juiz esbofeteado não teve meias medidas: — deu no pé. Convenhamos: — é empolgante um pânico assim taxativo e triunfal, sem nenhum disfarce, nenhum recato. Digo “empolgante” e acrescento: — raríssimo ou, mesmo, inédito.

Via de regra, só o heroísmo é afirmativo, é descarado. O herói tem sempre uma desfaçatez única: — apresenta-se como se fosse a própria estátua eqüestre. Mas a covardia, não. A covardia acusa uma vergonha convulsiva. Tenho um amigo que faz o seguinte: — chega em casa, tranca-se na alcova, tapa o buraco da fechadura e só então, na mais rigorosa intimidade — apanha da mulher. Mas cá fora, à luz do dia, ele é um Tartarin, um Flash Gordon, capaz de varrer choques de polícias especiais.

Pois bem. Ao contrário dos outros covardes, que escondem, que renegam, que desfiguram a própria covardia — o juiz correu como um cavalinho de carrossel. Note-se: há hoje toda uma monstruosa técnica de divulgação, que torna inexeqüível qualquer espécie de sigilo. E, logo, a imprensa e o rádio envolveram o árbitro. Essa covardia fotografada, irradiada, televisionada projetou-se irresistivelmente. E quando, em seguida, a polícia veio dar cobertura ao árbitro, este ainda rilhava os dentes, ainda babava materialmente de terror. Acabado o match a multidão veio passando, com algo de fluvial no seu lerdo escoamento. Mas todos nós, que só conseguimos ser covardes às escondidas, tínhamos inveja, despeito e irritação dessa pusilanimidade que se desfraldara como um cínico estandarte."

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