Petkovic - o craque não tem idade

Petkovic – o craque não tem idade

 

Existem jogadores que com a idade ficam cada vez melhores.  Lembro que na primeira passagem pelo Flamengo, apesar de ser um craque, Pet me irritava porque custava a entrar em forma ou a adquirir o famoso “ritmo de jogo”. O time perdia muito com isso.

Quando voltou agora, no primeiro jogo e na primeira jogada se enrolou com a bola e quase proporcionou um gol para o adversário da vez.  Fiquei temeroso, achei que ia acontecer tudo de novo e com um agravante ele estava mais velho e já havia passado por Santos e Atlético Mineiro sem ser aproveitado.  Ficava mais no banco, era reserva para quinze minutos finais.  Entendi, como muita gente, que ele estava acabado.

 Entretanto, talvez pela presença de Andrade, Adriano e pela polêmica causada pela sua contratação, que culminou até com a saída dos antigos diretores de futebol, ou talvez por tudo isso junto, Pet retornou brilhando como nos bons tempos e sem a máscara modorrenta da tal falta de ritmo.  No segundo jogo já entrou arrebentando. Calaram-se os críticos e surgiram os aplausos desses mesmos críticos, já que a opinião que ele estava acabado para o futebol era unânime.  Talvez até mesmo ele tenha se surpreendido com sua performance.

 No passado do futebol carioca e brasileiro algo semelhante aconteceu, vejam e apreciem o que disse o Eterno Nelson Rodrigues em uma de suas crônicas, a respeito de Zizinho:

 O craque sem idade

Nelson Rodrigues – Manchete esportiva (03/12/1955)

Quando acabou a etapa inicial do jogo Brasil x Paraguai, o placar acusava um lírico, um platônico 0 x 0. Ora, o empate é o pior resultado do mundo. O torcedor sente-se roubado no dinheiro da entrada e inclinado a chamar os 22 jogadores, o juiz e os bandeirinhas de vigaristas. Acresce o seguinte: — de todos os empates o mais exasperante é o de 0 x 0. Essa virgindade desagradável e irredutível do escore já humilhava o público e, ao mesmo tempo, o enfurecia.

Súbito, o alto-falante do estádio se põe a anunciar as duas substituições brasileiras: — entravam Zizinho e Walter. Foi uma transfiguração. Ninguém ligou para Walter, que é um craque, sim, mas sem a tradição, sem a legenda, sem a pompa de um Ziza. O nome que crepitou, que encheu, que inundou todo o espaço acústico do Maracanã foi o do comandante banguense. Imediatamente, cada torcedor tratou de enxugar, no lábio, a baba da impotência, do despeito e da frustração. O placar permanecia empacado no 0 x 0. Mas já nos sentíamos atravessados pela certeza profética da vitória. Os nossos tórax arriados encheram-se de um ar heróico, estufaram-se como nos anúncios de fortificante.

Eis a verdade: — a partir do momento em que se anunciou Zizinho*, a partida estava automática e fatalmente ganha. Portanto, público, juiz, bandeirinhas e os dois times podiam ter se retirado, podiam ter ido para casa. Pois bem: — veio o jogo. Ora, o primeiro tempo caracterizara-se por uma esterilidade bonitinha. Nenhum gol, nada. Mas a presença de Zizinho, por si só, dinamizou a etapa complementar, deu-lhe caráter, deu-lhe alma, infundiu-lhe dramatismo. Por outro lado, verificamos ainda uma vez o seguinte: — a bola tem um instinto clarividente e infalível que a faz encontrar e acompanhar o verdadeiro craque. Foi o que aconteceu: — a pelota não largou Zizinho, a pelota o farejava e seguia com uma fidelidade de cadelinha ao seu dono. (Sim, amigos: — há na bola uma alma de cachorra.)

No fim de certo tempo, tínhamos a ilusão de que só Zizinho jogava. Deixara de ser um espetáculo de 22 homens, mais o juiz e os bandeirinhas. Zizinho triturava os outros ou, ainda, Zizinho afundava os outros numa sombra irremediável. Eis o fato: — a partida foi um show pessoal e intransferível.

E, no entanto, a convocação do formidável jogador suscitara escrúpulos e debates acadêmicos. Tinha contra si a idade, não sei se 32, 34, 35 anos. Geralmente, o jogador de 34 anos está gagá para o futebol, está babando de velhice esportiva. Mas o caso de Zizinho mostra o seguinte: — o tempo é uma convenção que não existe nem para o craque, nem para a mulher bonita. Existe para o perna-de-pau e para o bucho. Na intimidade da alcova, ninguém se lembraria de pedir à rainha de Sabá, a Cleópatra, uma certidão de nascimento. Do mesmo modo, que importa a nós tenha Zizinho dezessete ou trezentos anos, se ele decide as partidas? Se a bola o reconhece e prefere?

No jogo Brasil x Paraguai, ele ganhou a partida antes de aparecer, antes de molhar a camisa, pelo alto-falante, no intervalo. Em último caso, poderá jogar, de casa, pelo telefone.

Comments 

 
0 #1 Mayara 2009-12-10 17:49
Ainda bem que o Pet não entrou nessa tal onda sem ritmo e brilhou muito no Flamengo! é o pet é o pet é o pet! Hexaaa!
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