Existe paz injusta?

Existe paz injusta?

 

Há alguns dias - desde então - uma frase me atormenta:

 “A paz mais injusta é preferível à guerra mais justa”.

Esta frase é atribuída a Erasmo de Roterdã (1467-1536),  um dos maiores pensadores do renascimento, período que vai do século XIII até mais ou menos a metade do século XVII.

Nasceu na Holanda, mas morou em quase toda a Europa Ocidental.  Foi um pensador cristão, mais que isto, foi um filósofo pacifista.  Alguns o denominam de humanista, mas prefiro o filósofo.

Grande pensador, com o advento recente da imprensa na época, invenção dos tipos móveis atribuída a Gutemberg, por volta de 1430, Erasmo passava seus dias praticamente nas oficinas, dizem que ele escrevia a bico de pena em pé, textos após textos, e os passava imediatamente para os tipógrafos.  Dizem que foi um escritor que realmente conseguiu viver da venda de livros e discursos.  O “Elogio da Loucura” chegou a alcançar cerca de 750.000 exemplares, só não informaram os historiadores quantas décadas levaram para serem impressos tantos exemplares.

 Diferente de Ghandi, que pregava o pacifismo extremo caracterizado na desobediência civil pelo imobilismo do indivíduo e da multidão, inclusive com a greve de fome radical, sem confronto físico, Erasmo admitia a guerra ou a luta apenas como defesa.  Era tolerante, mas sem radicalismo.

 A época era de intensas guerras e confrontos religiosos. Não só entre cristãos e muçulmanos, mas entre os próprios cristãos, foi a época das grandes cisões no cristianismo, com Lutero, Calvino e Henrique VIII.

A igreja católica dominava a Europa.  As grandes “companhias” religiosas financiavam as viagens marítimas para as descobertas e conquistas de novas terras e “novas almas”.

 A imprensa de Guttemberg era a grande ferramenta para os intelectuais divulgarem os seus pensamentos.

Pois Johan Rinck, um jurista que eu presumo que seja inglês, fez uma consulta a Erasmo sobre a conveniência de se combater os turcos que se aproximavam da Europa com intenções hostis.

Foi a “Consultatio de bello Turcis inferendo”.  Na resposta Erasmo discorre sobre a situação política da Europa, a religião cristã e sobre a aproximação do exército turco. Pacifista, Erasmo em determinado momento, segundo "inferi", diz a tal frase que me causou angústia:

 “A paz mais injusta é preferível à guerra mais justa”.

Pesquisei e não encontrei um cristão, um turco ou um judeu que me ajudasse a indagar sobre a injustiça da paz.

Falar sobre a guerra justa ou injusta é mole.

A paz pode ser conceituada como a ausência de guerra.  Sendo a guerra o estado de beligerância que a todos trás tormentas para o corpo e para o espírito. A paz é exatamente o oposto.  É algo agradável.

Vamos transportar para o plano ideal: esqueçam a guerra como normalmente a vemos, isto é, tiros, mortes, fome, prisão, putrefação e passemos a visualizá-la como um estado de tormento do espírito e do corpo no plano individual, preocupação, angústia, sofrimento, dor, inquietação. Seja justo ou injusto este estado do pensamento, este estado mental, nós podemos compreender, embora não seja de fácil aceitação.

Se a paz é a ausência desse estado, a nós pouco importa se é justa ou injusta.  Mas todos nós durante a vida buscamos a paz, sempre que ela surge é aceita como algo muito desejado e normal, ao contrário da guerra que é sempre esporádica, a não ser para os espíritos atormentados, mas aí estamos falando de estado mórbido, doentio;

Se a paz é estado normal e sempre querida e desejada, não consigo imaginar como ela pode ser injusta.

Na hipótese de alguém entender que se encontra em paz injustamente, pelo simples fato de considerar que o que o levou a ter paz foi uma situação não ética, já teremos aí uma não-paz ou um estado de guerra pela simples lembrança do censurado comportamento, ou atitude, ou pensamento.

Portanto, não pode haver paz injusta.  Sua simples consideração no pensamento leva ao estado de guerra, de inquietação.

A guerra, sendo justa ou injusta, pode levar á paz em razão da elaboração, da evolução, do controle, do encontro da solução adequada do pensamento.

Já a paz é equilíbrio. É o estado permanente desejado. No instante em que passamos a considerar que o equilíbrio está se rompendo, neste exato momento já a perdemos e entramos no estado de guerra.  A paz pressupõe a ausência do questionamento.

Eu acho que não existe paz injusta, mas disso ainda posso duvidar e a partir dessa dúvida entro no estado de não-paz, de inquietação, de guerra.

E você, o que acha?

Dê sua opinião.

Comments 

 
0 #3 Tsunami 2010-08-31 12:07
Como eu entendo as suas palavras. Paz injusta soa a paz pôdre.A assunto mal resolvido.
As guerras são sempre um horror, em que as as vítimas são os inocentes que pagam as folias dos que ficam (sempre) na rectaguarda.
Daí eu concordar totalmentet quando diz ."A guerra, sendo justa ou injusta, pode levar á paz em razão da elaboração, da evolução, do controle, do encontro da solução adequada do pensamento".
Num mundo ideal, todos teríamos paz interior.
Infelizmente, algures, haverá sempre alguém ansioso por estilhaçar essa paz para, com o que sobra, construir o "seu" castelo.
Adoro ler os seus textos. De certo modo, eles, também, contribuem para a paz interior de muitos.
Quote
 
 
0 #2 Tsunami 2010-08-31 11:57
Como eu entendo. A paz injusta, soa a paz pôdre. Guerras são sempre péssimas, pelos inocentes que "pagam" as folias dos que ficam (sempre) na rectaguarda.
Concordo, pois, quando diz que "A guerra, sendo justa ou injusta, pode levar á paz em razão da elaboração, da evolução etc."
A paz passa, necessária e obrigatóriament e, pela paz interior de todos e cada um.
Infelizmente,al gures, haverá sempre alguém disposto a estilhaçar a paz dos outros para, com os estilhaços, construir o seu próprio castelo.
Adoro ler os seus textos.
Contribuem, até certo ponto, para a minha paz interior.
Quote
 
 
0 #1 Fábio 2010-06-09 01:38
Interessante sua linha de raciocínio, talves uma guerra (entre nações)justa fosse, por exemplo, um país que tivesse de ser punido por crimes cometidos contra outro país. E uma Paz injusta seria a condição de este país não ser punido mesmo tendo cometido os crimes.
So sei que temos de buscar a paz interior.
Quote
 

Add comment


Security code
Refresh