O canalha, a vigarista, o crápula e o devasso

O canalha, a vigarista, o crápula e o devasso

 Político conhecido, Doutor Armando sempre se apresentava em público rodeado de assessores e seguranças quando precisava cumprir alguma diligência da CPI.  Adorava “sair” em diligências pelo país.  Nas pequenas cidades do interior surgia em jatinhos de ricos empresários.

Seu séquito mais parecia o de Richelieu, o cardeal primeiro-ministro francês de Luiz XIII, nos meados do século XVII.

Era um sem fim de “Doutor prá cá, Doutor prá lá” ou “Excelência”.  Tinha gente – os cabos eleitorais do partido – que pretendendo bajular mais do que os demais, arriscava, por achar que era um pronome de tratamento mais importante, se referir a ele como “Eminência”, embora no seu íntimo quisesse mesmo falar “Santidade”.

Os políticos locais desdobravam-se para conseguirem o melhor salão da região para a instalação da CPI.  Os fazendeiros corriam a oferecer um boi para o churrasco ou até mesmo sugeriam o sacrifício da “Mimosa” que, nos seus bons tempos de feiras agropecuárias, havia sido a “vaca premiada”.

Durante os trabalhos da CPI deitava discurseira e se apresentava como defensor da moralidade e dos bons costumes.  Sempre iniciava seus discursos “de improviso”, enfatizando a importância de seu cargo - deputado federal – insinuando que era mais importante e hierarquicamente superior a todas as autoridades presentes no evento até mesmo ao humilde prefeito e ao “estadual” juiz de direito.  Ignorava, por “pura ignorância”, as competências municipais e estaduais.

- Como os senhores sabem... Sou federal!

Doutora Virgínia, sempre bela, charmosa, perfumada e saltitante, com vestidos da moda lhe adornando as coxas roliças e malhadas, na altura de seus gloriosos 40 anos, já estava no seu segundo mandato como deputada estadual.

Mãe exemplar era casada com um médico famoso e respeitado em sua cidade.

Havia fundado diversas ONGs todas voltadas para o apoio e resgate da tradição familiar, dos bons costumes. Visava em suas ações à mulher solteira e desamparada pelos violentos maridos.  Não perdia missa e fazia questão de comparecer ao seu final na sacristia, portando seu véu, terço e missal adquiridos no Vaticano, para parabenizar o pároco pelo belo sermão.  Seu terço tinha incrustada uma lasquinha de madeira que ela jurava que era da “Santa Cruz de Cristo...”.

Freqüentadora dominical da igreja, não deixava também de comparecer toda sexta-feira – uma “rápida visitinha” - na wiskeria local onde era sempre bem recebida pelas moças de plantão. Para todas tinha uma palavra de carinho e de esperança por dias melhores:

- “... não pensem que eu me esqueci da creche para seus filhos, estou liberando a verba em Brasília...” – dizia para todas as putas em alto e bom som.

- “... com os filhos de outras” (balbuciava, completando a frase).

Adorava usar o gerúndio: “... estou liberando...”; “... falando...”; “... pedindo...”; “... providenciando...”.

Tinha livre acesso aos gabinetes de vereadores, prefeitos, governadores, deputados, senadores e magistrados de qualquer esfera da federação, diziam que conhecia até presidentes.  Em Brasília não havia um só político que não a conhecesse.  Era exímia liberadora de verbas do orçamento para o seu estado e sua cidade, sua base eleitoral. Havia sempre um projetinho com verba a ser liberada.

Suas cruzadas de pernas eram sensacionais e a todos maravilhava.

Doutor Pedrinho Ouvidor havia sido eleito deputado pelos fiéis da igreja que havia fundado.  Sua fortuna era admirada por todos.  Discursava na câmara como pregava no templo:

- Ontem Deus me disse:

- “Pedro, Pedro!... precisamos construir um conjunto de prédios para abrigar os pobres, os miseráveis, as jovens adolescentes mães solteiras, os centros de recuperação e convencimento de retorno para o bom caminho de pessoas drogadas e gente viciada em sexo, inclusive GLSBTT”.

- Se Deus me disse... eu quero cumprir!... mas eu preciso do apoio de meus fiéis.  Aqueles que contribuírem com a minha missão terão seus nomes gravados em placas em todos os prédios, para que Deus não se esqueça de seus sacrifícios...

- Ah! ia me esquecendo: ...as contribuições podem ser em dinheiro, cheque ou então em cartão de débito na nossa lojinha especializada em produtos para “os últimos dias...”.

Suas pregações eram famosas.  Diziam até que fazia milagres.

Chico Zexis era um dos maiores, mais conhecidos e antigos lobistas da capital.  Conhecia todos os meandros das inclusões de projetos e liberações de verbas nos orçamentos da república e dos estados.  Possuía algumas mansões no “Lago”. Uma utilizava como residência e as outras eram alugadas e cedidas para comitês eleitorais e amigos.  Eram famosas suas festas e reuniões.

O “Zexis” de seu nome surgiu no início de suas atividades quando pateticamente procurou ocultar seu nome verdadeiro.  O expediente – lógico - não durou muito e foi batizado no meio político com o carinhoso apelido. Acabou por adotá-lo socialmente.

Zexis era amigo íntimo de importantes personalidades do mundo financeiro, político e empresarial do país.

Chico tinha livre acesso a todos os gabinetes do país.  Utilizava três celulares com agendas infinitas.

Como Pedro, Virgínia e Armando, também possuía enorme assessoria.

Mas Chico caiu em desgraça... Se “esqueceu” de entregar a mala da propina para um ganancioso e estratégico político...

Em Brasília é assim: prometeu propina, mas não entregou... morte política certa.

O assunto era para ser sigiloso, mas... vazou!

O inquérito já estava quase concluído quando os vídeos do dia do flagrante foram lançados, não se sabe por quem, na internet.

Foram horas de gravação de áudio e vídeo.

Num dos vídeos, o mais famoso, aparecia Doutor Armando em um dos quartos da mansão de Zexis, às gargalhadas, repartindo maços de dólares e combinando com Virgínia o valor da próxima comissão que iriam pedir para o governador do seu estado. Virgínia - só de calcinha – colocava os maços em uma das malas que se encontravam sobre uma das camas.  Em determinado momento Armando chegou a tentar pegá-la por trás, mas Virgínia o empurrou e recebeu um sonoro tapa no rosto.  Virgínia revidou e Armando, com sua ridícula cuequinha tipo zorba, quase feminina, ajoelhou-se chorando. Ao fundo ouviam-se vozes vindas de outra parte da casa.

A cena muda para a sala da mansão de Zexis:

Virgínia aparece em segundo plano descendo uma escada, já vestida e carregando a mala...

Doutor Pedrinho Ouvidor, sem camisa, ostentando volumosa barriga, usando uma cueca samba-canção e meias pretas com ligas, perto de uma mesa de centro, onde aparecem grandes maços de dinheiro, cheira o que parece ser cocaína na companhia de um travesti vestido com roupas íntimas rendadas e vermelhas.

Após algum tempo Doutor Ouvidor, com marcas brancas de pó no rosto, beija seu parceiro na boca (um selinho) e grita:

- VAMOS REZAR IRMÃO, VAMOS AGRADECER POR MAIS ESTE DIA DE GRANDES ALEGRIAS!

Barulho de portas arrombadas, correria, gritos...

- POLÍCIA!

Você caro leitor... está chocado com as cenas? Pois acredite que tais fatos acontecem...

Os canalhas, vigaristas, crápulas e devassos podem estar neste momento às gargalhadas rindo de você que os elegeu sem saber, iludido por suas retóricas e marketing político.

Existem muitos políticos sérios, mas pense bem quando resolver colocar alguém para administrar o teu país... em qualquer esfera da federação...