José Saramago - Enquanto todos se recusavam... Ele pensava!

José Saramago - Enquanto todos se recusavam... Ele pensava!

“Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de reflexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, não vamos a parte nenhuma”. ("Pensar, pensar" - Por Fundação José Saramago - Revista do Expresso, Portugal (entrevista), 11 de Outubro de 2008).

Saramago foi - mas para os que o leram ou o estudaram sempre será - um pensador sem barreiras ou antolhos. A sua expressão filosófica parece que não era condicionada a horizontes pré-definidos, embora vez por outra, tenha me transmitido a impressão de não se constranger em fazer o “sinal da cruz” ou exclamar “ai, Jesus!” em momentos importantes de sua vida, tudo fruto de sua infância com formação rural católico-portuguesa, mas que não o impediu na fase adulta de analisar, ver e denunciar o engodo das religiões e da mitologia dos deuses.

Para Saramago, Deus não criou o homem à sua imagem e semelhança, ocorreu exatamente o contrário, foi o homem que criou Deus dando-lhe todas as características humanas, repleto de “virtudes” e “defeitos”.

Vejo em Saramago, sem outrora ter estudado o seu discurso como agora procedi, a ampliação erudita e madura do meu pensamento no início de minha fase adulta, da minha juventude pensante, da minha fase universitária.

Nasceu – 1922 – em uma aldeia nos arredores de Lisboa. Filho e neto de camponeses analfabetos e sem terras.  Seus pais se mudaram para a cidade por melhores condições de vida, sua mãe se tornou uma espécie de empregada doméstica e seu pai um “guarda municipal”. Saramago não conseguiu ir além dos estudos secundários. Após o primário, formou-se em serralheria. Na ocasião o ensino do francês fazia parte do currículo escolar e graças a esses estudos e ao seu autodidatismo conseguiu se manter anos mais tarde, em épocas de desemprego, com a tradução de obras de autores franceses.

Filiou-se ao clandestino Partido Comunista Português em 1969, chegando a participar da Revolução dos Cravos de 1974, aquela que pôs fim à Ditadura Salazarista.

Sempre foi um libertário absoluto, nunca preso a filosofias políticas, dogmas e tabus.

A manifestação de seu pensamento não admitia grilhões, só via a liberdade total.

- Contestou as ações de Israel em sua política externa e foi considerado anti-semita;

- Enfrentou dogmas católico-protestante-evangélico-cristãos e por pouco não foi excomungado;

- Criticou muçulmanos e foi quase perseguido “pela espada de Alá”;

- Censurou Cuba pela execução dos desafetos políticos e foi ironizado por políticos de direita porque não deixariam passar em branco a fala de um comunista:

“Apesar de ser um histórico defensor do regime cubano, Saramago ensaiou um rompimento em 2003, quando 75 dissidentes foram presos e três pessoas foram executadas em um julgamento sumário.

Em carta, escreveu: “De agora em diante Cuba segue seu caminho, eu fico aqui. Cuba perdeu minha confiança e fraudou minhas ilusões”.

Pouco depois, em entrevista a um jornal cubano, reatou: “não rompi com Cuba. Continuo sendo um amigo de Cuba, mas me reservo o direito de dizer o que penso, e dizer quando entendo que devo dizê-lo”. (UOL – 18/06/2010, 14h37).

- Não viu Bento XVI com bons olhos e horrorizou desde o pároco da igrejinha da aldeia portuguesa e do sertão nordestino até os cardeais com pretensões papais.

- Acusou o capitalismo e sua globalização de terem vencido a guerra: Os ricos continuarão ricos e os pobres sempre pobres, ou seja, sempre existirão ricos e pobres;

- Criticou os governos autoritários... Que preferiram com o seu autoritarismo não se manifestar;

- Fez duras críticas ao governo Lula e ao seu Partido dos Trabalhadores, em entrevista à Rede Globo, e, por incrível que possa parecer... não sei se foi aplaudido por Lula... mas esquerdistas brasileiros, talvez por nada terem entendido de sua obra, nos bares de Ipanema e de Brasília, com certeza o fizeram:

- Maravilha! O “homem” é comunista... (aplausos e gritos histéricos).

Era socialista. Dizia que havia se filiado ao Partido Comunista por uma questão “hormonal” – sentia-se comunista - e assim foi considerado por toda a sua vida, mas suas entrevistas mostravam seu socialismo sem radicalismo, sem fundamentalismo, mais aproximado do socialismo ideal, sem preocupação com o radicalismo de esquerda (comunista).

Dizia que era socialista, mas sem o socialismo destes partidos que estão por aí, que de socialistas nada têm:

 A primeira coisa que se passa com os partidos socialistas é que não são socialistas”.

Ateu convicto e assumido causou grande comoção no mundo cristão, especialmente na Igreja Católica, ao humanizar a figura de Cristo com “O Evangelho segundo Jesus Cristo”.

“O filho de José e Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram chorar, e chorará por esse mesmo e único motivo”.

Questionou o “sumiço” de Jesus dos doze aos trinta anos.  “Sumiço” sem grandes explicações das igrejas e seitas cristãs, diga-se de passagem, visto que os Evangelhos são peças – à tôda evidência - de literatura “formadora de opinião”. Talvez tenham sido os anos das descobertas dos prazeres e da gandaia...

Segundo ele, Maria Madalena foi quem introduziu literalmente Jesus no mundo dos prazeres carnais, para horror, mais uma vez, dos cardeais.

- Cento e cinquenta pais-nossos e duzentas... aff!... aff!... aveee-mariaaas! - Diria o Padre Catequista e Confessor do Colégio Salesiano Santa Rosa (Niterói) perdendo o fôlego, onde estudei interno por quase seis anos.

O “Evangelho segundo Jesus Cristo” foi censurado em Portugal.

Souza Lara – Subsecretário de Cultura do governo Cavaco Silva – vetou sua candidatura ao “Prêmio Literário Europeu sob o pretexto de que o livro era ofensivo para os católicos, transferimos, minha mulher e eu, em Fevereiro de 1993, a nossa residência para a ilha de Lanzarote, no arquipélago de Canárias”. Saramago não teve dúvidas: exilou-se com sua Pilar na ilha de Lanzarote.

“A esse Deus não podemos arrancá-lo de dentro das nossas cabeças, não o podem fazer nem mesmo os próprios ateus, entre os quais me incluo. Mas ao menos discutamo-lo. Já nada adianta dizer que matar em nome de Deus é fazer de Deus um assassino. Para os que matam em nome de Deus, Deus não é só o juiz que os absolverá, é o Pai poderoso que dentro das suas cabeças juntou antes a lenha para o auto-de-fé e agora prepara e ordena colocar a bomba. Discutamos essa invenção, resolvamos esse problema, reconheçamos ao menos que ele existe. Antes que nos tornemos todos loucos. E daí, quem sabe? Talvez fosse a maneira de não continuarmos a matar-nos uns aos outros.” (Cadernos...).

Em um primeiro momento, com a afirmação acima, apesar do ateísmo confesso, podemos imaginar que estamos diante de uma agnose (criada por Kant), mas, ao contrário da certeza de Thomas Henry Huxley, que a definiu, após uma reunião da Sociedade Metafísica Britânica, em 1876 -  “Eles estavam seguros de terem alcançado certa gnose – tinham resolvido de forma mais ou menos bem sucedida o problema da existência, enquanto eu estava bem certo de que não tinham e estava bastante convicto de que o problema era insolúvel.” - Saramago chama a todos para a briga, pois ele tinha, e vai ter sempre, a certeza que atingiu a gnose referida de Huxley, mas no sentido de que deus não existe!

A estrela de Saramago brilha no céu!

Para os radicais de direita, para aqueles loucos que entendem que o capitalismo puro sempre foi a solução e que os comunistas, são, sim, comedores de criancinhas, graças a Deus Saramago se foi e deixou de perturbar-lhes as convicções e queimar-lhes as mufas, embora não tenham lido sua obra com medo de serem excomungados...

Para os de esquerda, principalmente os festivos, aqueles que batem palmas até para o pum de Fidel Castro – “Ditador? Não! Grande Estadista!” – Saramago se foi! Saramago se foi! Devem estar a repetir os alarmistas brasileiros pensando que ele morava no ABC Paulista e torcia pelo Corinthians, embora não tenham lido sua obra com medo de serem rotulados de universitários - “Tem muita gente que acha que inteligência está ligada à universidade...” (Lula X Caetano Veloso).

Para os críticos de literatura e para os professores de português, de cursos para escritores e para os revisores: - Ainda bem que ele parou de escrever, o “homem” não gostava de ponto, era cheio de vírgulas e não se importava com maiúsculas ou minúsculas... Apesar do Nobel de Literatura...

Vamos pensar que José de Sousa Saramago continua na sua ilha, lendo, escrevendo, curtindo sua Pilar e dizendo: Ganhei o Nobel, mas e daí?...

(Os créditos são da Fundação José de Sousa Saramago, UOL, Rede Globo – em razão de vídeos de domínio público no Youtube, assim como de várias outras entrevistas ali lançadas de autores diversos, bem como de informações constantes de outros sites linkados pela ferramenta de busca Google).

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Comments 

 
0 #1 Tsunami 2010-07-25 10:54
José Saramago foi, também, um homem mau, como alguém escreveu recentemente.
Durante o período em que foi director do jornal, despediu jornalistas por razões políticas. Inaceitável.
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