Revisitando a história da macroeconomia

Revisitando a história da macroeconomia

Mercantilismo, Fisiocracia e Liberalismo

 

“A abordagem técnica macroeconômica estuda o comportamento e as relações causais entre os grandes agregados econômicos, como o produto interno bruto (PIB), o consumo privado (CP), a taxa de desemprego (TD), a taxa de juro (SELIC) e consumo público. Através desta abordagem, os economistas tentam estabelecer relações entre estas variáveis para compreender e prever os efeitos de intervenções nessas variáveis sobre o futuro da economia” - (Wiki...)

Razão pela qual, quanto a técnica de elementos agregados, deixo a apreciação acadêmica para os economistas e matemática financeira.

Como dito no título, faço uma revisita histórica no caminhar da filosofia macroeconômica, em rápidas pinceladas, nesta primeira parte, visando base para melhor entender os subtítulos.

A história dos sistemas econômicos-políticos de estado vigentes no mundo atual só passam a revelar importância - no campo da economia política administrativa - a partir da idade média porque foi aí que se fizeram notar os grandes pensadores das escolas econômicas com seus estudos e discursos.

Com o Iluminismo o pensamento entrou em ebulição.

Antiguidade clássica

Mas, para efeito panorâmico, sempre bom recordar, registro que a economia aparentemente caótica dos grandes impérios da Antiguidade Clássica - Egípcia (5000AC a XII DC); Persa (2000AC a 331AC); Romana (753AC a 476 DC), Grécia Antiga (776 AC a 323AC); Bizantina (Império Romano do Oriente - 330DC a 1453 DC), etc. – tinha por base a busca da riqueza no império alheio, época das conquistas de territórios, rapina de bens e escravidão dos derrotados (soldados e povo) levados a trabalhos forçados, muitas vezes nas suas próprias terras, agora dominadas pelos nobres estrangeiros vencedores, que por sua vez pagavam altos impostos ao poder central.

Feudalismo e Idade Média

Com as primeiras invasões germânicas (bárbaros) sobre o Império Romano do Ocidente, por volta do Século III, começa a se formar a economia feudal e se delinear a idade média.

A Europa, nessa época, estava dividida em pequenos reinos, verdadeiras cidades-estados, distribuídas entre os nobres e o alto clero cristão.

Em cada monarquia surgia a eminência parda de um cardeal influenciando o rei, associando-se a ele e, muitas vezes, financiando com recursos próprios, ou intermediando junto ao Vaticano e/ou a companhias religiosas, campanhas por “almas” e arrecadação de riquezas.

A fuga para o campo, em razão dos constantes ataques bárbaros às fortalezas, tornou-se realidade.

A economia feudal – pois - era baseada na doação de terras aos suseranos escolhidos pelo rei que, por sua vez, as distribuíam aos seus vassalos em troca de juras de fidelidade, trabalho e local para comercialização de seus produtos nos entornos e praças das cidades fortificadas.

Cobravam altos impostos e ofereciam certa proteção em razão da proximidade de seus exércitos. 

A economia era baseada na agricultura e artesanato.

Embora em quantidade reduzida, moedas circulavam na idade média e o escambo (troca) de mercadorias era muito utilizado.

Tal sistema vigorou - aproximadamente - entre os Séculos III e o XV.

Tradicionalmente a Idade Média tem o seu término fixado, para efeito didático, na queda do Império Romano do Oriente, quando ocorreu a tomada de Constantinopla pelos Turcos Otomanos, em 1453.

A Idade Moderna começa nessa data e vai até a Revolução Francesa, em 1789.

Da Revolução Francesa dos tempos do Iluminismo até os dias de hoje, temos a idade contemporânea.

As escolas do pensamento

Desde sempre teorias econômicas vieram sendo desenvolvidas ao longo dos tempos: gregos, persas, árabes, fenícios, romanos, germânicos, etc.

Debates sobre livre comércio interno e externo, preço justo, trabalho e remuneração são constantes na história da humanidade.

Com Adam Smith, entretanto, fixa-se o marco do pensamento econômico clássico com a sua “An Inquiry Into the Nature and Causes of the Wealth of Nations”- “Uma investigação sobre a natureza e causas da riqueza das nações” - (1776), ou, simplesmente, “A Riqueza das Nações”, desenvolvendo dois temas principais: O Mercantilismo e a Fisiocracia, ainda hoje utilizados por correntes de filosofia econômica.

Mercantilismo

As grandes navegações e os grandes descobrimentos - final do Século XV até o início do XVI - foram impulsionados por esta teoria.

O Mercantilismo, segundo a crítica de Adam Smith, considerado o pai do liberalismo econômico e principal economista clássico, preconizava o acúmulo de riqueza representada por grandes quantidades estocadas de metais preciosos, com a falsa idéia de que seria utilizada para o desenvolvimento da manufatura e fomento do comércio nacional nas urbes, notando-se que a economia da época era baseada principalmente na agricultura. (www.economiabr.net)

Na verdade, na discussão não era utilizada, por seus debatedores e divulgadores (Thomas Mun, Colbert e o Italiano Antonio Serra) a expressão mercantilismo.

Os temas propostos tinham relação com a importação e exportação de bens e mercadorias – a balança comercial – a importância do acúmulo de riqueza como lastro, como garantia de crédito comercial.

O termo foi criado pelo crítico:

“Para a consecução dos objetivos mercantilistas, todos os outros interesses deviam ser relegados para o segundo plano: a economia local tinha que se transformar em nacional e o lucro individual desaparecer quando assim conviesse ao fortalecimento do poder nacional. A teoria foi exposta de maneira dispersa em numerosos folhetos, meio de comunicação então preferido pelos preconizadores de uma doutrina.

Programa da política mercantilista. Alcançar a abundância de moeda era, efetivamente, um dos objetivos básicos dos mercantilistas, já que, segundo estes, a força do estado dependia de suas reservas monetárias. Se uma nação não dispunha de minas, tinha de buscar o ouro necessário em suas colônias ou, caso não as tivesse, adquiri-lo por meio do comércio, o que exigia um saldo favorável da balança comercial, ou seja, que o valor das exportações fosse superior ao das importações.

Para obter uma produção suficiente, deviam ser utilizados hábil e eficazmente todos os recursos produtivos do país, em especial o fator trabalho. Toda nação forte precisava possuir uma grande população que fornecesse trabalhadores e soldados, e ao mesmo tempo o mercado correspondente. As possessões coloniais deveriam fornecer metais preciosos e matérias-primas para alimentar a manufatura nacional, ao mesmo tempo em que constituíssem mercados consumidores dos produtos manufaturados da metrópole. Proibiam-se as atividades manufatureiras nas colônias, e o comércio, em regime de monopólio, era reservado à metrópole.

Em território nacional, o mercantilismo preconizou o desaparecimento das alfândegas interiores, a supressão ou redução dos entraves à produção forçados pelas corporações de ofício, o emprego de sistemas de contabilidade e acompanhamento das contas de receitas e despesas do estado, a troca de funcionários corruptos ou negligentes por outros honestos e competentes, a criação de uma fiscalização centralizada e a adoção de leis que desestimulassem a importação de bens improdutivos e de grande valor.” (http://www.economiabr.net)

Smith denunciou que tal prática, na verdade, não tinha só como objetivo o propalado desenvolvimento de uma embrionária industrialização ou manufatura nacional.

Gerava não só a maior estocagem possível de metais nobres de todas as origens, desde a extração nas colônias, mas também a rapinagem dos corsários entregues aos reis e rainhas sem qualquer controle na calada da noite, ou não, para o enriquecimento dos nobres.

 Os Corsários não passavam de piratas singrando os mares do planeta pilhando navios de qualquer bandeira. Possuíam um documento denominado “Carta de Corso”. A Inglaterra, França, Itália, Espanha e Sarracenos de várias origens foram pródigos em expedir tais “cartas”.

Recebiam parte do lucro e, se posteriormente presos portando tais documentos, eram absolvidos até mesmo pelas nações concorrentes no corso.

Portugal utilizou tais métodos amplamente, conforme as orientações do Marques de Pombal, sugando as minas do Brasil - Colônia e ultrapassando os limites do Tratado de Tordesilhas, como exemplo, em sua caminhada para o oeste do território sul-americano, buscando terras, metais e pedras preciosas.

A crítica desenvolvida por Adam Smith dizia que com o passar do tempo a prática mercantilista se concentrou no acúmulo puro e simples de riqueza, descuidando do objetivo maior da “riqueza das nações”: a produção de bens, o trabalho do homem, a mecanização dos meios de produção, a divisão social do trabalho. Esses objetivos acabavam por serem conduzidos por estranhos caminhos por “uma mão invisível”, em razão da frágil alma humana, para a formação dos enormes tesouros, gerando preocupação apenas com o lastro.

Mas críticas à parte, com todos os seus vícios, a prática do Mercantilismo foi que tornou a Europa forte, opulenta e poderosa, apesar de sugar as colônias de além mar, deixando-as à míngua, eis que não lhes era permitida a industrialização ou acumular as riquezas extraídas de seu território.  Tudo deveria ser encaminhado para o tesouro do colonizador.

Era produto do absolutismo e havia forte influência do estado sobre a economia, sobre a atividade particular, visando justamente fazer voltar o carro aos trilhos a cada saída em razão de defeito na medida da bitola.  Leis sobre leis tentando consertar o malfeito.

Fisiocracia e Liberalismo

A Escola Fisiocrática (poder da natureza), cujas origens remontam ao Século XVIII, foi a primeira escola a tratar a economia como ciência.

Filósofo, mais que economista, Adam havia publicado, em 1759, a obra “The Theory of Moral Sentiments”. O trabalho desenvolvido na crítica ao mercantilismo na verdade foi fortemente influenciado pela abordagem ética desta obra.

Adam, à vista dos trabalhos dos fisiocratas Quesnay e Turgot, que entendiam que a agricultura e os proprietários rurais eram os geradores de todas as riquezas e propiciavam lucro maior que as outras formas de produção, meramente transformadoras dos produtos da terra, elaborou seus estudos e suas aulas tendo por base a observação das classes sociais, o sistema de produção, o comércio e a circulação da fortuna, principalmente tendo por base a Inglaterra, onde vivia, que já era mais industrializada (manufatureira) que a França de Quesnay, na época, basicamente agrícola.  As relações industriais, comerciais e trabalhistas já eram mais complexas que o mundo agrário francês.

Adam Smith, dizia que a busca da fortuna pessoal é da natureza do homem e, nessa busca, o indivíduo acaba por beneficiar a coletividade.

“Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos nosso jantar, mas da consideração que eles têm por seus próprios interesses.  Na esfera econômica, isso propicia a divisão do trabalho e a acumulação de capital, dessa forma aumentando a produtividade”  (http://www.webartigos.com/articles/12483/1/Fisiocracia-Adam-Smith-e-David-Ricardo/pagina1.html)

Sua vida e sua obra... Remeto também ao trabalho de Rubens Queiroz Cobra – Pagina de Filosofia Moderna - “Adam Smith – Época, vida, filosofia e obras de Adam Smith” – (http://www.cobra.pages.nom.br/fmp-smith.html)  - uma das muitas fontes que consultei.

Após a morte de Smith (1723 – 1790, escocês), outros pensadores vieram e acresceram a aquelas idéias outros temas relevantes como:

- Jean-Baptiste Say (1767-1832, francês), após estudo da “Riqueza...”, publicou o “Tratado de Economia Política”, com ênfase no papel do empreendedor na exploração econômica. (http://www.acton.org/publications/randl/rl_liberal_por_426.php)

- Thomas Malthus (1766-1834, inglês), com os seusPrimeiro...” e “Segundo Ensaio”, enfocando a necessidade de uma espécie de contrôle da natalidade para que houvesse bom êxito na produção agrícola e industrial, pois, com a população aumentando sem freios, os meios de produção não teriam como acompanhar o consumo. (http://www.algosobre.com.br/biografias/adam-smith.html)

- David Ricardo (1772-1823, inglês) – Em “Princípios de Economia Política e Tributação”, defende a livre competição no comércio internacional, com os estados se especializando na produção de bens determinados, beneficiando compradores e vendedores.  Seus estudos sobre o trabalho, especialmente sobre o custo da produção – o valor de um produto é determinado, entre outros elementos, de acordo com o esforço necessário para a sua produção. (http://www.algosobre.com.br/biografias/david-ricardo.html)

Gradativamente a solitária e arcaica economia agrária medieval foi sendo aperfeiçoada e  superada como base econômica para propiciar o desenvolvimento dos povos e dos estados.

A máquina, principalmente o motor a vapor, passou a superar o trabalho humano e causou desajustes na relação empregatícia, na relação entre capital e trabalho. Forçando o nascimento de outras teorias sobre preço justo, cultura de massa, lucro excedente, remuneração do trabalho na justa medida do lucro auferido pelo capital, liberalismo econômico.

Foi fruto próprio e exclusivo do movimento iluminista - surgido na França do Século XVII – que defendia o domínio da razão contra a visão teocêntrica da Idade Média em épocas de absolutismo.

O termo surgiu porque seus defensores diziam que esta forma de expressão do pensamento tinha o “propósito de iluminar as trevas em que se encontravam a sociedade”.

Na França grassava a idéia do “L’etat c’ést moi”, de Luiz XIV.  O absolutismo dizia que os reis governavam por inspiração divina.

Se o Papa assim era considerado – representante de Deus – e tinha a seu favor o dogma da infalibilidade... Por que não eles também?

Lembre-se que toda monarquia tinha o seu cardeal, como ministro de estado, querendo influenciar, influenciando, conspirando e traindo o monarca a todo tempo.

Foi a época dos grandes pensadores europeus, como:

- John Locke (1632-1704) – O homem adquiria o conhecimento através do empirismo, ou seja, o homem ao nascer tem a sua memória vazia e vai adquirindo o saber através da experiência, através da tentativa e erro.

- Voltaire (1694 – 1778) – Defendia a liberdade de expressão do pensamento e era grande adversário das idéias teístas, contra a sua intolerância religiosa e seus dogmas.

- Jean-Jacques Rousseau (1712 – 1778) – Discursava por um estado democrático com igualdade para todos.

- Montesquieu (1659 – 1755) – Divulgava a tripartição dos poderes do estado em executivo, legislativo e judiciário.

- Denis Diderot (1713 – 1784) e Jean Le Rond D’Alembert (1717 – 1783) foram os enciclopedistas dos filósofos da época.  Reuniam em enciclopédia todas as manifestações dos pensamentos iluministas.

O Movimento Iluminista influenciou e influencia até hoje todas as nações da terra.

Derrubou o absolutismo na França com a Revolução Francesa; foi o embrião da liberdade de imprensa, como a conhecemos hoje; modificou o direito constitucional dos estados; introduziu a participação do povo nas tomadas de decisões de governo.

Nesse quadro de esplendor intelectual nasceram as teorias fisiocratas ou fisiocráticas, que diziam que toda a atividade ou prática econômica que fosse fruto do empirismo natural, com base na cultura da terra – a cultura agrária - que viesse a se desenvolver naturalmente sem interferência do estado, alcançaria sucesso, pois estaria coerentemente ligada à natureza e ao próprio homem.

Faziam forte oposição à teoria intervencionista medieval do estado, uma vez que o desenvolvimento da economia passava a ser artificial, gerando distorções.

Se todos os produtos da indústria que giravam no comércio tinham sua origem na terra, os reais geradores de riqueza eram os donos de terra, os homens do campo.

François Quesnay (1694 -1774), uma das principais figuras da Escola Fisiocrata, assim acreditava e dizia que os principais elementos na cadeia de produção eram os proprietários rurais. Opunha-se ao mercantilismo advogando a abolição das barreiras legais na produção, circulação e consumo de gêneros.  Era defensor da liberdade na economia, com o “laissez-faire, laissez-passer”, com o estado se preocupando apenas com a segurança patrimonial e com a liberdade individual. (wiki..)

Turgot e Gournay, seus discípulos, desenvolveram suas teorias e influenciaram o pensamento de Adam Smith que não pugnava pela retirada total do estado da economia. Suas intervenções deveriam ser pontuais, visto que as atividades particulares acabariam por produzir benefícios públicos. O trabalho ético público e particular seria a mola propulsora da produção.

Gournay, na mesma linha de pensamento de Quesnay, dirigiu seus esforços para a indústria e a liberdade na produção, circulação e consumo.

Assim surgiu a idéia principal do liberalismo econômico:

- “Laissez faire, laissez passer. Le monde va de lui même.”

Ou, literal:

 - Deixe fazer, deixe passar. O mundo vai por si mesmo.

Ou, tradução mais adequada ao nosso português e ao nosso estudo:

- Não se meta. A economia se ajeita por si só.

Mercantilismo, Fisiocracia e Liberalismo, suas características, filosofias, nuances, detalhes e técnicas econômicas formaram a base dos sistemas políticos-econômicos contemporâneos que desaguaram no Capitalismo, Neocapitalismo, Socialismo, Neosocialismo e Comunismo.

(Fontes e créditos:

http://www.pt.wikipedia.org./wiki/Portal:Economia;

http://www.economiabr.net;

http://www.mundoeducação.com.br/históriageral/fisiocracia.html;

Além dos já referidos no corpo do texto, inúmeros outros autores consultados, muitos sem referência na Wikipédia, mas com acertos históricos e acadêmicos aferidos por mim confrontando fontes diversas.)

E você, o que acha?

Dê sua opinião!

Comments 

 
0 #2 Jackson Antunes Rosa 2012-08-09 00:11
grandes ideias , excelentes pensamentos!
Quote
 
 
0 #1 Jackson Antunes Rosa 2012-08-09 00:10
Observa-se que a base de nosso saber atual, com relação a economiques, parte destas ideias, desses grandes sujeitos que sairam do comum e observaram algo que poderia contemplar a toda sociedade por muitos anos após.
Quote
 

Add comment


Security code
Refresh